quinta-feira, 26 de novembro de 2009

MARIA ALBERTA MENÉRES



Poetisa, ficcionista e tradutora nascida em Vila Nova de Gaia, foi casada com o poeta Ernesto Emmanuel de Mello e Castro, com quem organizou e publicou a Antologia da Poesia Portuguesa –1940-1977. Maria Alberta tem vasta colaboração em jornais e revistas literárias. Foi diretora do Departamento de Programas Infantis e Juvenis da Radio televisão Portuguesa (1975-1986). Além da sua obra poética, escreveu uma considerável quantidade de livros infanto-juvenis. Com o seu livro Água Memória, recebeu o prêmio Giacomo Leopardi, ao qual seguiram-se outros, como: Prêmio Especial de Teatro Infantil, da Secretaria de Estado e Cultura, (1979); Grande Prêmio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças (1986), dentre outros. Como poetisa, revela uma aguçada consciência do mundo e é a este que procura desvendar, interrogar e captar seus mistérios.

RELEVOS
Onde o calor tortura o linho
e uma lenta erupção mastiga o tempo
lembro-me doutras coisas tantas coisas
de que me vou esquecendo

Dodecaedro e só por dizer dode
dedo me ocorre e me socorre
dedo por dentro cheio de mistério
por fora a porta que na unha dorme

Um pisar leve de não acordar
os homens que no mundo vão dormindo
Um talher luminoso Uma cadeira
A hora mais provável do sorriso

Coritibandos não são pregos
mas podem ser mais que pisados
À noite as vozes quando saltam
provocam sinos como passos

Sua poesia acompanha de perto a prática experimentalista dos anos sessenta sem, no entanto, desprezar outras formas de estar na criação poética. Assim, obedecendo, quiçá uma sua tendência ao ecletismo, tanto deambula pelo terreno da poesia experimental, quanto se aventura por caminhos mais tradicionalistas, nos quais encontra o soneto e, nele, a forma perfeita para libertar o seu insubmisso lirismo.

Verte rosas teu rosto vês mudado
no tempo resto de tecíveis horas
Teu sentido ou cuidado tido dado
por ti de quem não sabe como foras

Amor porquê no circo só ferência
Alguém de alguém não disse lei nem quando?
Mata-me tanta vez quanta violência
É violeta ou é letra desviolando

Luminados assombros sombras iceis
Por onde Amor? Por onde que remorsos
Nascem dos dedos harpas retangíveis?

Verte rosas teu rosto vês possíveis
um a um tuas lágrimas dos nossos
dias mal soletrados e ilegíveis

A poesia de Maria Alberta Menéres não se constrói enquanto projeção de um estado subjetivo. Seu olhar incide sobre o que está além do seu eu social ou individual, invade as fronteiras de um imaginário transfigurador da realidade. Como outros poetas de sua geração, faz da meta-poesia um dos mais ricos momentos de reflexão poética, daí dizer: As folhas dos livros não abanam/ como as folhas das árvores/ ao sopro do meu pensamento./ E no entanto a aragem deveria ser esquiva/ e infiltrar-se por entre as palavras/ com manhas de lagarto/ estirando-se ao sol de todos os sentidos.

Autora: Zenóbia Collares Moreira.

sábado, 21 de novembro de 2009

CECÍLIA MEIRELES: UM CÃO APENAS.




Cecília Meireles não foi apenas uma grande poeta, ela também foi magnífica em suas crônicas, todas escritas com extraordinária leveza, suave emoção e intensa poeticidade e, muitas vezes, confundidas com um conto.

Vale lembrar que a crônica, nos dias atuais, possui uma forma de expressão bem particularizada, com características próprias que a tornam distinta e inconfundível com o conto. Este é pura ficção, a crônica não o é, sua gênese radica na realidade concreta.

Ela é considerada literatura e goza de prestígio no panorama da literatura, notadamente no Brasil, onde muitos cronistas-escritores notabilizaram-se pela qualidade impar dos seus textos: Machado de Assis, Olavo Bilac, Humberto de Campos, Raquel de Queirós, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Rubens Braga, Paulo Mendes, Paulo Francis, Arnaldo Jabor, Érico Veríssimo e tantos outros, integram a galeria dos grandes cronistas brasileiros. Todos cultivaram ou cultivam a crônica com assiduidade.

Eu amo as crônicas, especialmente por sua brevidade e por se reportarem a fatos do cotidiano, a alguma experiência do autor, a algo que ele captou nas ruas, nas pessoas, etc. Dentre ao autores de minha preferência, escolhi Cecília Meireles, autora de um dos textos que mais aprecio: Um cão apenas.

Um cão apenas descreve um encontro casual da autora com um pequeno cão sujo e doente que dormia à sombra de uma porta. Desse fato corriqueiro, a cronista faz um tocante relato acerca da miséria e do abandono em que vive o animalzinho, vítima da indiferença das pessoas e da omissão dela própria, que nada fez para ajudá-lo, apesar do olhar de súplica que a pequena criatura lhe lançou. “Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração. Ate o fim da vida sentirei esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer, neste complexo mundo dos homens”.

(Zenóbia Collares Moreira)



Um cão apenas
Cecilia Meireles


Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim – plantas em flor, de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito eis-me no patamar. E a meus pés, no áspero capacho de coco, à frescura da cal do pórtico, um cãozinho triste interrompe o seu sono, levanta a cabeça e fita-me. É um triste cãozinho doente, com todo o corpo ferido; gastas, as mechas brancas do pêlo; o olhar dorido e profundo, com esse lustro de lágrima que há nos olhos das pessoas muito idosas.

Com um grande esforço, acaba de levantar.-se. Eu não lhe digo nada; não faço nenhum gesto. Envergonha-me haver interrompido o seu sono. Se ele estava feliz ali, eu não devia ter chegado. Já que lhe faltavam tantas coisas, que ao menos dormisse: também os animais devem esquecer, enquanto dormem… Ele, porém, levantava-se e olhava-me. Levantava-se com a dificuldade dos enfermos graves, acomodando as patas da frente, o resto do corpo, sempre com os olhos em mim, como à espera de uma palavra ou de um gesto. Mas eu não o queria vexar nem oprimir.

Gostaria de ocupar-me dele: chamar alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para um tratamento… Mas tudo é longe, meu Deus, tudo é tão longe. E era preciso passar. E ele estava na minha frente, inábil, como envergonhado de se achar tão sujo e doente, com o envelhecido olhar numa espécie de súplica.

Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração. Até o fim da vida sentirei esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer, neste complexo mundo dos homens. Então, o triste cãozinho reuniu todas as suas forças, atravessou o patamar, sem nenhuma dúvida sobre o caminho, como se fosse um visitante habitual, e começou a descer as escadas e as suas rampas, com as plantas em flor de cada lado, as borboletas incertas, salpicos de luz no granito, até o limiar da entrada. Passou por entre as grades do portão, prosseguiu para o lado esquerdo, desapareceu.

Ele ia descendo como um velhinho andrajoso, esfarrapado, de cabeça baixa, sem firmeza e sem destino. Era, no entanto, uma forma de vida. Uma criatura deste mundo de criaturas inumeráveis. Esteve ao meu alcance, talvez tivesse fome e sede: e eu nada fiz por ele; amei-o, apenas, com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta. Deixei-o partir, assim, humilhado, e tão digno, no entanto; como alguém que respeitosamente pede desculpas de ter ocupado um lugar que não era o seu.

Depois pensei que nós todos somos, um dia, esse cãozinho triste, à sombra de uma porta. E há o dono da casa e a escada que descemos, e a dignidade final da solidão.


quarta-feira, 18 de novembro de 2009

RICARDO REIS, O HORÁCIO LUSITANO





As rosas amo dos jardins de Adônis

Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o Sol, e acaba
Antes que apolo deixe
O seu curso visível.
Assim, façamos nossa vida um dia.
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos.

Esta  Ode de Ricardo Reis apóia-se no carpe diem, tão grato aos epicuristas e fartamente tematizado na poesia horaciana. Assim sendo, o poeta privilegia o tempo presente, celebrando um ideal de vida intensamente vivida no dia de hoje, sem preocupação com o passado e com o futuro.



Rigorosamente, o assunto vai sendo desenvolvido nas três etapas, correspondentes a cada quatro versos três estrofes que o integram. Na primeira, o poeta declara à Lídia o seu amor às rosas do jardim de Adônis, motivado pela fugacidade de suas curtas vidas que começa e finda em um único dia, sem ontem, sem amanhã.



Em seguida, o poeta explicita que ama as rosas porque, para elas, a luz dura eternamente, desde o seu nascer com o sol nascente, até a sua morte antes que o sol decline. Na verdade, nenhum interesse tem o poeta pelas rosas enquanto elementos da natureza, mas sim como metáfora do ideal de vida sem lembranças do passado e sem expectativas do futuro que o poeta almeja. A ode finaliza com o apelo à Lídia para que vivam as suas vidas no presente, tal qual as rosas, como se cada dia totalizasse toda a existência, ignorando o passado já vivido e o futuro insondável.


É evidente que Ricardo Reis buscou na filosofia de vida de Horácio Flacco a inspiração para sua ode, desenvolvendo-a em consonância com o princípio epicurista do “carpe diem” que preconiza o viver despreocupadamente o dia de hoje, indiferente em relação ao que o inexorável destino prepara para o futuro.


Vale salientar a forma originalíssima e genial como Reis intertextualizou as temáticas horacianas, transcendendo à mera imitação dos versos do poeta latino, já posta em prática por poetas renascentistas e neoclássicos, como António Ferreira e Garção. Por meio de uma magnífica e personalíssima recriação das poesias e dos temas que consagraram Horácio, Ricardo Reis atingiu uma grandeza criativa que o coloca no mesmo nível do poeta latino, sem, no entanto confundir-se com este.


Garção e Ferreira obedeceram fielmente à teoria da imitação dos grandes poetas da antiguidade clássica greco-latina, preconizada pela escola que seguiam. Reis evitou a imitação, recriando uma outra obra poética enriquecida pela genialidade do seu iluminado talento, na qual há apenas o eco distanciado da herança horaciana.


Todavia, o poeta é fiel a alguns elementos oriundos da estética clássica, como de latinismos lexicais e sintáticos, nomes da mitologia clássica (Adônis, Apolo), etc. Mesmo o nome Lídia é o de umas das amadas de Horácio, da mesma forma que a ideologia que perpassa a ode reisiana.


Lembremos que Ricardo Reis é o heterônimo pessoano que é apresentado como um poeta clássico, impregnado da cultura e dos princípios filosóficos dos epicuristas e dos estoicistas, também presentes na obra de Horácio Flacco. Sua linguagem é culta, intelectualizada. Sua postura é contida, reflexiva, racional e livre de  sentimentalismo. 


Autora: Zenóbia Collares Moreira Cunha.



sábado, 14 de novembro de 2009

Metalinguagem e erotismo na poesia de Luíza Neto Jorge



Poetisa e ensaísta, nascida no Algarve em 1947, Luíza Neto Jorge fez parte do grupo de “Poesia-61”. Estreou na literatura em 1960 com o livro de poesias A noite vertebrada. Daí por diante não cessou de publicar livros de poesias, sempre muito bem recepcionados pelo público e pela crítica.


O poema que se segue, bem representativo da escrita vanguardista da poetisa, tem interesse tanto no que toca à forma, quanto ao conteúdo. No primeiro caso, tem-se uma estrutura poética que se organiza dentro dos princípios de liberdade absoluta, quanto às normas tradicionais que controlavam a técnica da criação poética. No segundo caso, tem-se um conteúdo que demanda uma maior participação do leitor na decodificação da mensagem, um tanto ambígua, que o texto veicula:


O POEMA
Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontando ao coração do homem

falo

com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta
e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme.


Poema é um texto, como tantos outros da autora, bem representativo da “Poesia-61”, que fez da metalinguagem uma das mais caras formas de expressão poética. O texto de Luiza Neto Jorge ajusta-se portanto às propostas do grupo, desenvolvendo-se em torno de uma reflexão acerca da poesia construção poética, do uso da palavra.

A construção do poema, problematizando a leitura com a dubiedade da palavra “falo”, colocada estrategicamente na proximidade de duelo e dedo, remete para uma leitura erótica do texto, especialmente influenciada pelo erotismo que se faz presente na obra a autora. Todavia, não levaria a nada.


Na poesia de Luiza Neto Jorge, a própria persona poética da autora, irônicamente glosada no poema `SO-NETO JORGE, Luiza´, põe a sua feminilidade entre as aspas de um cepticismo divertido:



“SO-NETO JORGE, Luiza”


A silabar que o poema é estulto
o amado abre os dentes e eu deslizo;
sismo, orgasmos tremem-lhe no olhar
enquanto eu, quase a rimar, exulto.


Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos, um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.


Nos desertos-íntimos, insuspeitos-
já caem com a calma as avestruzes
-ou a infância, com os oásis, finda;
à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego, e à vinda.

Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! Do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.
Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;

Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda
E se nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:

Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.
Um poema deixo, ao entardecer:
Meia palavra a bom entendedor.


A obra poética de Luiza Neto Jorge, a reflexão metapoética e o enfoque da feminilidade instituem-se como a viga mestra da sua poesia.



quinta-feira, 12 de novembro de 2009

ADÉLIA PRADO




"Meu primeiro livro foi feito num entusiasmo de fundação e descoberta nesta felicidade. Emoções para mim inseparáveis da criação, ainda que nascidas, muitas vezes, do sofrimento”. Com estas palavras, Adélia Prado apresentou ao público seu primeiro livro – Bagagem - publicado em 1976, com o apoio de Carlos Drummond de Andrade, grande admirador da poeta de Diamantina.


Este primeiro livro foi efusivamente recebido pela crítica, seduzida pelo estilo diferente da autora na expressão dos seus sentimentos e da sua singular visão do mundo que a rodeava, privilegiando a poesia do cotidiano magistralmente recriado.


GRANDE DESEJO
Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai.
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.


Adélia Prado também lança seu olhar para a problemática feminina. O poema “Enredo para um tema” uma espécie de denúncia ao amordaçamento das mulheres, a sua sulbaternização à vontade autoritária do homem nas sociedades regidas pelo poder e supremacia do masculino, exemplifica bem a incidência do seu olhar crítico sobre a condição feminina:


ENREDO PARA UM TEMA
Ele me amava, mas não tinha dote,
só os cabelos pretíssimos e um beleza
de príncipe de estórias encantadas.
Não tem importância, falou a meu pai,
se é só por isto, espere.
Foi-se com uma bandeira
e ajuntou ouro pra me comprar três vezes.
Na volta me achou casada com D. Cristóvão.
Estimo que sejam felizes, disse.
O melhor do amor é sua memória, disse meu pai.
Demoraste tanto, que...disse D. Cristóvão.
Só eu não disse nada,
nem antes, nem depois.

Observe-se a ironia que perpassa as palavras do pai e do marido, marcando o contraste entre o romantismo fantasioso da jovem mulher e o frio poder decisório do pai e a irônica observação do marido. À mulher cabia obedecer e calar, enquanto sua vida era tratada como uma mercadoria posta em leilão, sem nenhum respeito aos seus sentimentos e à sua vontade. Claro que a poesia é um retorno a costumes que remontam a uma época muito remota, mas se institui como uma metáfora do silenciamento e da submissão da mulher onde o milenar autoritarismo do homem é privilegiado.

A problemática da mulher e as questões de gênero são abordadas na poesia adeliana bem à sua maneira de focalizar outras práticas de cunho cultural, ora se revelando identificada, ora se distanciando. Na poesia que se segue, a autora começa com uma irônica referência, de cunho feminista (se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes), logo seguida de uma atitude oposta de cumplicidade no compartilhamento da tarefa doméstica e de plenitude no amor, protagonizada por um casal simples que vive um casamento harmonioso:

CASAMENTO
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como 'este foi difícil'
'prateou no ar dando rabanadas'
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.


Adélia poetiza os acontecimentos, aparentemente, banais e insignificantes do cotidiano, familiar ou não, focalizando a mulher - seus afazeres, sua condição existencial e visão de mundo:


ENSINAMENTO
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

E na apreensão dos pequenos gestos e das situações particularmente humanas que Adélia imprimirá a singularidade de sua marca, a especificidade de sua poesia e a grandeza do seu talento inovador.


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO





Fiama é um dos maiores talentos da dramaturgia e da poesia em Portugal, uma das mais fortes referências dentre as melhores poetisas de sua geração. Participou ativamente no grupo “Poesia 61”. No domínio da linguagem poética vem sustentando durantes décadas um lugar de destaque.
Na poesia que se segue, a poetisa intertextualiza a “Cantiga” Barcas Novas de João Zorro de uma forma singular: pois, além de iniciar o seu poema com a transcrição do texto integral do poeta medieval, com o qual estabelece um diálogo permeado de crítica ao contexto histórico contemporâneo, também usa a forma medieval pararelística:


BARCAS NOVAS  (João Zorro)

Em Lixboa, sobre lo mar
Barcas novas mandei lavrar.
Ai, mia senhor velida!

Em Lixboa, sobre lo ler
Barcas novas mandei fazer.
Ai, mia senhor velida!


Barcas novas mandei lavrar
E no mar as mandei deitar.
Ai, mia senhor velida!


Barcas novas mandei fazer
E no mar as mandei meter.
Ai, mia senhor velida!


BARCAS NOVAS   (Fiamma H. P. Brandão)
Lisboa tem barcas
Agora lavradas de armas.

Lisboa tem barcas novas
Agora lavradas de homens


Barcas novas levam guerra
As armas não lavram terras


São de guerra as barcas novas
Ao mar mandadas com homens

Barcas novas são mandadas
Sobre o mar


Não lavram terra com armas
Os homens

Nelas mandaram meter
Os homens com a sua guerra

Ao mar mandaram as barcas
Novas lavradas de armas

Em Lisboa sobre o mar
Armas novas são mandadas


É oportuno lembrar que o pararelismo é um dos traços definidores da poesia dos cancioneiros medievais, prodigamente usado nas Cantigas de Amigo, nas quais coplas (estrofes) de dois versos (dísticos) repetem intencionalmente versos de outros dísticos que as antecedem.
“O pararelismo é, assim, uma característica estrutural que se pode manifestar tanto fonética como semanticamente. Nesse sentido é de se notar que esse recurso, por vezes em formas não imediatamente evidentes, constitui o esqueleto de muitos textos da poesia barroca”.
Na poesia contemporânea, tais repetições assumem um outro significado, como se pode constatar nos textos poéticos neo-realistas e na poesia concreta.
O poema Barcas novas, de Fiama Hasse Pais Brandão, exemplifica muito bem esse trânsito de elementos próprios da poética medieval para a poesia contemporânea, na qual a forma pararelística e a repetição de uma parte do verso no verso seguinte, bem como o jogo permutativo entre as palavras barcas, armas e homens, guerra e terra, veiculam a crítica ao contexto sócio-político da época.
A intertextualidade na poesia de Fiama Hasse Pais Brandão é de suma importância para a expressão de sua visão particularizada da história de Portugal. A poetisa tanto projeta o discurso histórico no seu poema como estreita as relações intertextuais entre o seu texto e os textos de autores do passado.
Esse debruçar-se sobre os fatos históricos para criticá-los faz parte dos interesses da geração “Poesia 61”, da qual Fiama fez parte. No poema dado a seguir – Inês de manto - a poetisa resgata a imagem de Inês de Castro através de um hábil processo de desocultação da máscara com que a hipocrisia histórica vem recobrindo a face da hediondez trágica que envolve a morte da amante de D. Pedro.


INÊS DE MANTO

Teceram-lhe o manto
Para ser de morta
Assim como o pranto
Se tece na roca

Assim como o trono
E como o espaldar
Foi igual o modo
De a chorar

Só a morte trouxe
Todo o veludo
No corte da roupa
No cinto justo

Também com o choro
Lhe deram um estrado
Um firmal de ouro
O corpo exumado

O vestido dado
Como a choravam
Era de brocado
Não era escarlata

Também de pranto
A vestiram toda
Era como um manto
Mais fino que a roupa


O poema Inês de Manto focaliza de uma forma crítica a figura histórica de Inês de Castro. Já no título pode-se ver a metáfora da célebre frase “a que depois de morta foi rainha”, ou seja a Inês que foi assassinada não tinha manto, não tinha a realeza (teceram-lhe o manto / para ser de morta).
De manto (morta e rainha), Inês entra para a história, torna-se um mito. Inês de manto é a Inês encoberta pela mitificação histórica de um “amor”, quando o que se tem de fato é uma bem urdida trama (teceram-lhe o manto/ para ser de morta) política que se armou pelo poder que teia do mito ( assim como o pranto / se tece na roca) disfarça.


Autora: Zenóbia Collares Moreira.

domingo, 8 de novembro de 2009

Não posso adiar o coração



Hoje, assaltaram-me saudades de velhas amizades que deixei em Lisboa. Pus-me a rememorar momentos inesquecíveis de convivência fraterna e de longas trocas de impressões literárias com um grande amigo, o poeta português António Ramos Rosa, com quem muito aprendi sobre os mistérios da criação poética, especialmente os que presidem os processos de criação dele próprio. É difícil esquecer uma personalidade tão rica, uma pessoa tão fascinante.


Considerado pela crítica literária lusitana e européia uma das personalidades mais importantes e mais representativas da poesia contemporânea em Portugal. Encantador em sua simplicidade e ausência absoluta de vaidade, amável, intensamente afetuoso e receptivo, Ramos Rosa nos seduz logo ao primeiro contato.

Não é, portanto, de admirar que tenha tantas pessoas amigas, entrando e saindo de sua casa, onde são sempre recebidas por ele e por Agripina, sua esposa e também poeta, com um abraço caloroso e um sorriso generoso de boas vindas, sempre seguidos de um saboroso chá, servido em uma mesa caprichosamente posta.

Autor de uma vasta obra, Ramos Rosa figura entre os escritores mais premiados em seu país e dentre os que mais tiveram livros traduzidos e publicados em vários outros países.

Segundo afirma António Guerreiro, um dos críticos de sua obra, "para Ramos Rosa, escrever não é apenas um exercício que se cumpre por uma determinação estética. Muito mais radicalmente, é um programa de vida, uma necessidade vital e ética que encontra no poema uma estratégia que lhe orienta o sentido e os horizontes".

A poesia que selecionei para postar aqui, uma das minhas preferidas, foi escolhida no livro “Viagem através de uma nebulosa", publicado em 1988.

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século
a minha vida nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
*
Não posso adiar o coração

Vale a pena, especialmente para quem não a conhece, conhecer a vasta obra poética de António Ramos Rosa, disponível, também, nas livrarias do Brasil. Apesar de, em alguns livros, as poesias parecerem muito herméticas e, por isso mesmo, exigirem mais do leitor, à medida em que as lemos e relemos, vamos religando as unidades de sentido que dão a chave para a compreensão do universo mental, filosófico e da linguagem aparentemente cifrada do poeta.

Por Zenóbia Collares Moreira